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URBANISMO.ARQ.BR    :.:    5 | Feb | 2012  

“Um Século em Nova York” pequena resenha

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Agora que terminei a leitura de férias do “Um Século em Nova York”, Espetáculos em Times Square”, do pouco ortodoxo filósofo marxista Marshall Berman, faço aqui uma brevíssima resenha, para não ficar em dívida com os colegas, já que puxei o assunto lá atrás no início do deb@te sobre a URBANIDADE.

(NOTA: em breve este deb@ate deve aparecer por aqui, em modo flashback, com o Vinícius e outros seletíssimos colegas. Aguardem)

A ênfase certamente não é espacial, trata-se de um encadeamento de histórias relativas a eventos – teatrais, cinematográficos e musicais – sediados na cidade e especificamente na região de Times Square durante todo o século XX. Apesar disso, a rua está sempre presente. O espaço e, fundamentalmente, a condição pública do lugar, coordenam, envolvem e subjazem aos aspectos sócio-antropológicos e psíquicos.

Desde reminiscências pessoais e familiares, passando por filmes e peças emblemáticas da cultura de massas desde “O cantor de Jazz” e “Taxi Driver” até chegar a séries televisivas da contemporaneidade como “Sex and the City”, as narrativas estão ancoradas no square e do chamado “deuce” da rua 42. Comportamento, arte, moda, comunicação…

Apesar de marxista, Berman é um liberal, um americano defensor da cultura e dos valores do mercado, da sociedade “livre”, da publicidade, da expressão, da manifestação, e, assim, o tema dois anúncios publicitários é central, há um verdadeiro manifesto a favor da explosão comunicativa mercadológica representada pelos neons, outdoors e luminosos em geral. E seu papel na configuração de um fantástico envoltório tridimensional para a experimentação espaço-sensorial cotidiana das massas. Absolutamente livre da crítica às corporações que os marxistas tradicionais certamente fariam…

Nos capítulos finais, Berman narra mais objetivamente o processo de “revitalização” da região nos anos 90, com os planos, projetos e investimentos que reverteram a “degradação” (entre aspas, pois ele mesmo demonstrava alguma simpatia pela verdade dos prostíbulos, inferninhos e bocas do lixo que ali vicejavam) das décadas de 70/80. Descreve também os resultados, com uma boa – mas sempre mais interpretativa do que quantitativa – descrição do processo de negociação público-privada, do plano, dos novos edifícios e da nova dinâmica cotidiana.

Aqui faço o link com os projetos de “BID” – Business Improvement District – que estão começando a pintar aí no Rio – Rua Chile e arredores, certo? – que era exatamente como se chamou um dos tripés da revitalização da Times (os outros eram “Fundação Nova Rua 42” e “Projeto Estadual de Desenvolvimento da Rua 42”). Atenção, cariocas e cariúchos, olho nos BID!

Pois, a seguir, Berman descreve justamente alguns de seus efeitos colaterais no Epílogo (“A Reuters e Eu”), o menor e melhor capítulo urbanisticamente falando: é quando a gentrificação revela suas garras privatizantes e o perigo do esvaziamento do lugar. O “Bulevar Arrumado” dá mostras de estar perdendo a URBANIDADE.

E aqui, sim, surge a crítica às corporações. Meio envergonhada, quase pedindo desculpas, tipo “eu não queria fazer isso, mas vocês me forçaram!”

Mas fiquemos com o light side da coisa, para náo enveredar pelo ranço anti-capitalista que, defintivamente, não é a tônica do livro, nem do Berman, nem a minha no momento. Chega, né?

“Ao terminar, há duas idéias que precisamos assinalar. A primeira grande idéia, que remonta ao início do Iluminismo, é que o direito à cidade é um direito humano básico. A segunda grande idéia, que flui da primeira, é o direito a ser parte do espetáculo da cidade. Este espetáculo é tão antigo quanto à própria cidade.” (BERMAN, 2009)

NY deve estar abaixo de gelo, mas foi interessante ler sobre a hiper urbanidade do coração da civilização capitalista ocidental aqui no silêncio da beira-mar provinciana a 30 graus tropicais. Eu recomeindo.

(Nota: reparem que este post foi escrito em janeiro…)

› 3 comentários para ““Um Século em Nova York” pequena resenha”

  1. Jcelso (eu mesmo) says:

    Ah! Peguei aqui uma “Espaço e Debates” de 2001, com o tema “Aliança e Competição entre Cidades” e tem um artigo da Saskia Sassen (com Frank Roost) chamado “A Cidade: Local Estratégico para a Indústria Global do Entretenimento” com uma boa discussão a respeito do plano de requalificação urbana de Times Square.
    Aliás, este número (41) da Espaço e Debates é bastante bom, tem um texto do Soja e cia. (Allen Scott, John Agnew e Michale Storper) chamado “Cidades-regiões Globais” e a resenha do clássico “Espaço intra-urbano no Brasil” do Flávio Villaça, por Maria Lúcia Rafinetti Martins.
    Dá para comprar (esse e outros números) pela Internet no site da Annablume Editora.

  2. Um contraponto interessante a esse texto do Berman resenhado aqui pelo Júlio é o livro de Fernanda Sanchez, “A Reinvenção das Cidades para o Mercado Mundial” – como contraponto, menos otimista ou mais crítico à espetacularização das cidades, ainda que, creio eu, numa perspectiva também alimentada pelo Marxismo (agora na geografia). Tal espetacularização seria usada como mais uma ferramenta do city-marketing, como redução da riqueza simbólica, a riqueza das práticas, atores, etc…

    acho que essas leituras (mais Sassen etc.) dão um bom caldo nesse tema.

  3. O deb@te sobre a urbanidade já está no ar, confiram o post!

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